EDGARD DE ASSIS CARVALHO

 

 

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Ele é um devorador de livros e filmes, está sempre atento a tudo ao seu redor.

Parte de suas vindas a Natal são para cumprir tarefas acadêmicas , porém ele as ultrapassa e se embrenha pela cidade, percorrendo a pé alguns bairros, atento a arquitetura e as transformações como também aos acontecimentos sejam eles corriqueiros, políticos, sociais ou científicos.

Professor, escritor, antropólogo, intelectual, Edgard de Assis Carvalho não é só um cidadão urbano, é também um cidadão do mundo e porque não do planeta. Tem um conhecimento amplo das expressões científicas, estéticas, culturais, técnicas e mitológicas do humano.

Se formos bisbilhotar seu lattes veremos que todas as suas atividades até agora foram aglutinadoras, porque há um homem produtor de cultura como também um ser afetuoso no sentido amplo do humano costurando o tempo.

Edgard também é um “menino do Rio”, pois ele é carioca e desse lado ele traz a leveza de espírito ( que ele recuperou bastante após um trauma).

 

 

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Aqui ele responde algumas perguntas da blogueira:

 

1. Quando você conheceu a cidade e como começou essa relação de carinho por ela e hoje quantas vezes  visitas a cidade por ano?

Vim a Natal pela primeira no meio dos anos 1980 convidado por Ceiça Almeida. Aos poucos uma intensa colaboração ocorreu. Somos cúmplices em tudo, na vida e nas ideias. Penso que a cor do mar despertou minha afetividade, talvez por ter nascido no Rio. Em media, venho umas oito vezes por ano para uma maratona de bancas, conferências, entrevistas. Janeiro e fevereiro são sagrados. Refaço minhas ideias nesse período.

 

 

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2. O que mais lhe atrai na cidade?

Sempre penso no mar mas seria pouco dizer que é só isso. Há o clima da afetividade e do acolhimento que cresce a cada dia. Lamento o estado do patrimônio histórico e natural. Movimentos que isolados tentam conter a voracidade da especulação. O exemplo da defesa do Morro do Careca é exemplo recente disso.

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3. Como viajante, sei que você mantém o hábito de curtir o cotidiano de cada cidade que você vai, aqui como isso se dá?

Quem faz a cidade é o indivíduo com suas marcas, pulsões, desejos. Ando sempre a pé, por isso conheço lugares que nem os natalenses sabem. Sou um flâneur no estilo de Charles Baudelaire. É assim em Paris, onde morei, em Lisboa, Barcelona, cidades a que sempre retorno. E, claro, no Rio de Janeiro, onde nasci.

 

 

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4. Você é um cidadão do mundo e atento a tudo, porém há uma área do conhecimento que mais lhe dá prazer, como a arte, a literatura,o cinema, a música, etc, há uma ordem ou vem tudo junto?

Mudei muito a partir de dois acontecimentos: primeiro meu conhecimento com as ideias de Edgar Morin em 1970, na França. Desloquei meu prazer para o entrelaçamento dos saberes, principalmente para a relação arte-ciência. Aprendi isso com Lévi-Strauss, Prigogine, Serres, Einstein e muitos outros. O segundo foi meu acidente em 2004. Quase morri. Escrevi um livro, uma espécie de ajuste de contas. Sou um outro homem, mais afetivo e amoroso. Calvino fala sempre da leveza. É assim que procuro escrever, dar aulas, etc.

 

 

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5. Você é um grande tradutor, cite algumas obras que você gostou muito de traduzir?

Aprendi que tradução é transposição de sentido. E isso deve ser feito de modo claro, sem ferir ideias originais. Comumente traduzo a quatro mãos. Tudo começou por acaso. Numa de minhas aulas, perguntei se alguém sabia francês para ajudar o resto da classe. Uma aluna deu o sim. O livro foi publicado depois. Juntos traduzimos mais de 15. Às vezes traduzo só, como o Diário da China, Amor, poesia e sabedoria. A tetralogia de Michel Serres – Hominescências, Variações sobre o corpo, O incandescente, Ramos – foi um trabalho meticuloso com mais 400 notas explicativas se pensarmos nos quatro volumes. O resultado foi ótimo. Gostei bastante de O Ano zero da Alemanha, acabo de terminar Meu Caminho e finalizo Na Direção do Abismo todos do Morin.

 

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6. Também um grande leitor, o que anda lendo?

Terminei de ler a biografia do Rimbaud escrita por Edmund White e os primeiros contos do Paul Bowles. Leio todos os livros do Saul Bellow, Paul Auster, Ian MacEwan. Achei A Estrada do Cormac McCarthy que virou filme e acaba de estrear em São Paulo e As Benevolentes do Jonathan Littell excelentes. Esse último o drama do holocausto sob a ótica do carrasco. Gosto bastante do João Gilberto Noll , do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho. Fico por aí na literatura brasileira. Leio Carlos Fuentes, Ernesto Sabato, releio Garcia Marquez e Cabrera Infante. A América Latina pulsa nessas narrativas. Como sou leitor ávido dos policiais devoro tudo da P.D.James e do Garcia-Roza. Acho o detetive Spinoza um arquétipo das relações humanas. Sou fascinado por Proust. Pretendo enfrentar Em busca do tempo perdido pela terceira vez, e desse vez no original. Quero fazer o mesmo com Jorge Luiz Borges, cuja obra completa ainda não conheço.

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7. O cinema me parece ser sua eterna e preferida namorada, dá para dialogar o cinema e a ciência?

Meu namoro com o cinema é amplo. Vejo tudo, faroeste, desenho de animação, drama, musical, terror, vampiro, ficção científica, erótico, e de todas as nacionalidades. O cinema não tem pátria, é linguagem universal, diz coisas que a ciência nem chega perto, é antecipatório. A versão de Alice, do Tim Burton, é fantástica. O mundo subterrâneo do filme é uma metáfora da modernidade liquida. Precisamos aprender a ver o outro lado do espelho.

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8. Onde fica a arte?

Arte é metáfora viva, penetra nos sentidos, expande a cognição. Se aceitarmos a ideia de Lévi-Strauss de que a ciência é basicamente metonímia, arte e ciência são, ao mesmo tempo, simétricas, opostas e complementares.

 

 

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9. Quando as fronteiras são quebradas, quais os cuidados que devemos ter no processo de produção e criação das nossas narrativas?

A criação é nômade por excelência. A quebra de fronteiras deve ser cuidadosamente praticada. A fronteira está em toda parte. É preciso dominá-la para, depois, ir além dela. Não tenho ilusões, o todo sem a parte de nada vale. Não podemos ficar por aí culpando Descartes pela fragmentação. A criação é um trabalho meticuloso, sensível, lento. Exige uma transformação de si, subjetiva, para que se possa entender os outros. Merleau-Ponty disse isso quando definiu o sentido da Antropologia.

 

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10. Quem é o homem de hoje?

O Homem é um oceano de incertezas no universo mundializado em que vivemos. Foi destronado de seu pedestal por Copérnico, Darwin, Freud. Parece que não aprendeu a lição. Se os primatas não humanos criam e transmitem cultura, nem isso nos pertence mais com exclusividade. Talvez seja uma quarta ferida narcísica na nossa arrogância, perversidade e culpa. Ando fascinado por esse tema. Se pudesse voltar no tempo, faria como Darwin, ficava observando horas a fio seus comportamentos e desejos. Por isso, adoro os trabalhos da Jane Goodall, Frans de Waal e outros.

 

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11.Um espaço, um lugar especial bom de estar na literatura, na arte, na música, na ciência?

Esse lugar está em toda parte: na nossa casa, no sexo, nos amores, nas amizades verdadeiras, no escuro do cinema, num bom restaurante com amigos, numa sala de concertos e até mesmo na Universidade. Basta deixar-se contaminar pelo ambiente sem restrições de qualquer ordem. Aprendi isso com os mitos. Claude Lévi-Strauss disse que as mitologias são respostas irônicas que enfrentam o desencantamento do mundo. A ciência não passa de um mito da modernidade. As Luzes da ciência não bastam. É preciso identificar as sombras e delas extrair lições de sabedoria. É assim que vivencio meu trabalho e meus afetos hoje.

 

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Um pensamento sobre “EDGARD DE ASSIS CARVALHO

  1. Olá Edgard,
    Já cruzamos por muitos espaços de psicanálise, arte, cultura, antropologia etc.
    Ex–fafich ufmg e outros tive o raro privilégio ter sido orientado por anos em pessoa pelo helio pellegrino, nos idos de 60.
    Hoje, aposentado ando esmiuçando os ínfimos da vida, escrevendo roteiros, lendo, clinicando, passando e-mail.
    Parabéns pelo seu trabalho. Tenho acompanhado alguma coisa. Sempre boas, que você tem feito.
    Deixo meu e-mail para contato.
    Abraço,
    Márcio

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