Um sertão em silêncio

 

Um sertão em silêncio – Oswaldo Lamartine

 

Eu tenho amealhado muito pouca experiência para falar sobre Oswaldo Lamartine. Li algumas de suas obras, porém, minha passagem pelos seus escritos sempre foram mais como pesquisadora do assunto sertão. De toda forma chegamos a nos conhecer.

Fico assim, mais à vontade de falar a partir de minhas impressões, de coisas aparentemente simples da vida, dos fragmentos de pouca convivência com ele, ou até mesmo as sombras dos rastros imaginados por mim.

Oswaldo Lamartine me parecia um homem completamente astucioso (no bom sentido), determinado, inteligente, intelectual como é comprovado pela própria obra e por seus estudiosos.

De toda forma, foi através de uma amiga em comum que nos aproximamos. Foi-se construindo assim uma amizade com laços de fragilidade, porém, ao mesmo tempo resistentes.

Ele conhecia algumas histórias de valentia e esquisitice de meu bisavô que corria sertão adentro. Um dia, ele me entregou por escrito uma dessas histórias e lembrava de um fato acontecido com ele ( Oswaldo) que chegou a lamber a orelha de um defunto que foi entregue numa caixa ao seu pai por alguém da família do meu avô, como prova de uma vingança. Ele, curioso, foi testar do que se tratava e terminou lambendo a orelha de um morto. Se isso é verdade, só os mortos sabem.

Em seus últimos tempos de vida, parecia que vinha travando uma luta com a atualidade do mundo que vivia. Recusava insistentemente alguns hábitos e o uso ou funções das novas tecnologias. Passou assim a viver envolvido em memórias de um sertão arcaico, que ele mesmo denominava de “sertão de nunca-mais”. Intrigou-se com a velhice e astutamente se colocou à espreita, observando-a, acredito que não gostava de fazer parte dela. Talvez por isso adiantou sua ida, já cansado desse mundo que já não sentia seu e, como um sertanejo valente, deu cabo da dor.

Na cartografia de sua paixão pelo sertão estavam alguns assuntos mais recorrentes, por exemplo: as facas. Numa tarde, por telefone, ele me fez longa descrição sobre elas, não só como um pesquisador mas também como um apaixonado que fala sobre seu objeto de admiração e amor. Chegou a falar de uma faca que ele manuseou e que pertenceu ao meu bisavô e que estava incluída em um de seus livros.

Tinha também uma admiração pelos ferros de marcar gado, uma admiração estética e chegou a me sugerir que eu criasse trabalhos plásticos a partir dessas marcas. Curioso é que nesse dia ele terminou esse papo com a mesma expressão que depois eu a encontrei no livro “Em Alpendres d’Acauã”(2001-p 24), quando ele cita: “…essas figuras eu espio derna que me entendo de gente”.

Senti assim que a sua escrita e fala muitas vezes caminhavam juntas.

Nesse período, por intermédio dele, recebi de presente um livro maravilhoso, de autoria do seu amigo Virgílio Maia: “Rudes Brasões-Ferro e Fogo das Marcas Avoengas”( 2004). Ele (o autor), casado com a artista plástica Socorro Torquato (carinhosamente chamada por Côca), que desenvolve trabalhos com a cerâmica a partir de traços da pintura rupestre e o universo da heráldica. Os dois casais, Vírgilio e Côca, Oswaldo e Natércia, a sua namorada na época, foram amigos. Natércia organizou o livro “Em alpendres d’Acauã – Conversas com Oswaldo Lamartine de Faria – 2001”. Ela, uma cearense envolvida com literatura e que morreu bem antes dele.

Prometi a ele que ia pensar sobre o projeto estético com os ferros de marcar gado. Entretanto, como ele mesmo dizia que eu não cumpria nenhuma promessa que fazia, estou mesmo até hoje adiando tal projeto. Ou ainda não amadureceu o suficiente para brotar como arte.

Oswaldo, quando o conheci, era fisicamente um homem frágil e muito magro, que murmurava já com dificuldade as palavras (tinha passado por uma cirurgia na cabeça), porém, tinha olhos extraordinariamente brilhantes e vivos.

Um dia, após conversarmos sobre livros, ele me entregou uma cópia digitada da “Carta da Seca” (2006) e me pediu para editar e cuidar esteticamente do livro. Sugeri uma parceria com uma amiga em comum, já experiente para tal empreitada. Ele logo concordou. Os meses foram passando, minha amiga me enrolando e eu enrolando ele. No final, ela confessou que não ia fazer o trabalho. Peço, assim, a intermediação de outra amiga para contar a ele o desfecho. Ele xingou até a minha última geração e ficou prontamente, como diz o ditado popular, “de mal comigo”.  Carreguei essa culpa. No entanto, depois fui perdoada. E ele entregou o livro a um editor da cidade.

No dia do lançamento do livro, ele escreveu carinhosamente no meu exemplar uma dedicatória que dizia assim: “Angela, A história e o assunto deste livro (de 1877), nós dois sabemos. Hoje, neste 2006, assino em nome dele (Targino)”.

Oswaldo, conhecia e admirava a produção de um livro, os cuidados com a programação visual, a impressão, a costura etc. Infelizmente, o destino não lhe deu o prazer de ver seus livros bem editados, como ele mesmo sonhou. Seus livros esteticamente (como objetos) tendem a ser mais brochuras.

 

Oswaldo havia resolvido morar sozinho, não sei os motivos, nossa amizade não tinha esse grau de intimidade. De toda forma, mesmo na correria do dia a dia, vinha, vez por outra, a lembrança e a vontade de visitá-lo, porém, ele já estava bastante fragilizado e eu sentia medo de incomodá-lo.

Mesmo assim, um dia fui visitá-lo. O apartamento era minúsculo e ele se apoiou no parapeito da varanda, curvando o corpo, apontou para além do rio Potengi e falou:

” …daqui eu vejo quando está chovendo no sertão”.

Aquela espécie de murmúrio me doeu no peito. Um sertão que ele tanto amava e agora era apenas sonhado a distância, a partir de um espaço reduzido e fechado de um quarto de hotel. De lá, não só imaginava e via seu sertão como também tangenciava o mundo que acreditava não ser mais seu. Provavelmente, daquele mesmo lugar, ele mirou pela última vez o seu sertão, já silenciado e sem chuva (já era março de 2007).

A notícia de sua ida (desejo dele), como não haveria de ser, se estabelece em nós como paragens tão frias quanto o limiar de um fio da navalha ou o estopim de uma bala, nos polarizando entre a vida e o mundo da morte.

 

Angela Almeida

 

Referências:

Pereira, Targino P.- Carta da Seca/ organização e notas: Oswaldo Lamartine de Faria. Sebo Vermelho- Fundação Guimarães Duque- Fundação Vingt-Um Rosado. Natal- 2006.

Conversas com Oswaldo Lamartine de Faria / Natércia Campos (organizadora). – Fortaleza: Imprensa Universitária/ UFC- Natal: Fundação José Augusto, 2001.

Maia, Virgílio – Rudes brasões: ferro e fogo das marcas avoengas / Virgílio Maia. – 2ed.- Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004.

 

 

 

Canto de Muro-Câmara Cascudo

Intervenção Fotográfica

Desde a primeira leitura do livro Canto de Muro (Câmara Cascudo), há um tempo atrás, o desejo de produzir algo com imagens me instigou a chegar hoje nesta série fotográfica. O êxtase de um lugar-comum como um simples quintal e seus moradores (insetos e animais), parte deles quase invisíveis e que Cascudo os vai ampliando e desafiando os limites entre natureza e cultura, me fascina até hoje.
Aqui, a fotografia denota quase uma artesania: fui misturando técnicas e, por meio de colagens, fui produzindo intervenções. O desfoque, a aparência de mal acabado, quase rascunhos de imagens em cada fotografia, tudo isso foi proposital com a intenção de me aproximar do imaginário criativo do autor quando escolheu o quintal, lugar dos fundos, dos restos, como cenário de seu romance.
Não há aqui certezas nem a pretensão de uma leitura literária ou sociológica. Deixei-me ser apenas guiada pelos desejos de expressão tendo, nas mãos, uma câmara fotográfica. Os objetos (sineta, caderneta de anotações, chinelos, charuto, cinzeiro, taça, copo…) de propriedade do autor, do seu cotidiano, estão aqui retratados e misturados com imagens representativas dos insetos, bichos e natureza, elementos do seu mundo ficcional.
O meu guia foi o afeto à arte.
Angela Almeida