Exercícios com a Fotografia

8 de maio de 2011

 

Como gosto de pular etapas e às vezes fazer as coisas simultaneamente, enquanto estou aprendendo a fotografar, também estou aprendendo a experimentar. Parto sempre do meu lugar, das minhas janelas, pois infelizmente a cidade não nos dá segurança para sair por aí fotografando sozinha. Uma das coisas que mais incomoda morar em Natal é exatamente o não direito do cidadão de caminhar na cidade livremente. Se é para pedalar, só a noite e em grupo. Se é para fotografar, só em grupo e fora do centro da cidade, da área urbana. Se vai à noite a um restaurante, mesmo próximo de casa, precisa ir de carro, porque corre o risco de ser assaltada. Só nos resta se enfurnar nos shopping centers. Assim, prisioneramente vou tentando experimentar a fotografia a partir das minhas janelas.

 

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Fotos da autora do blog.


Massimo Canevacci em Natal

8 de maio de 2011

 

 

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Massimo Canevacci. Um homem de eXtrema sensibilidade. Esteve em Natal ( 06 de maio de 2011), na UFRN e fez uma palestra para um seleto grupo aberto na Semana de Antropologia.

Um homem que falou de fetichismos visuais, culturas eXtremas, cidade/metrópoles, comunicação e arte de forma inovadora e nos alertou sobre as teorias que já não dão conta da contemporaneidade.

Para ele a escrita se reinventa, a arte responde sobre o “novo” através das metáforas e que o pulsar do contemporâneo é a comunicação.

Ressalta que as pesquisas etnológicas hoje precisam “desnativizar o nativo”. Repensar a relação pesquisador/ pesquisado. Treinar o olhar sobre o próprio olhar, isto é, aprender a fazer-se olhar.

Outros conceitos caros a ele: o estupor metodológico, o treino do encontro com o “estranho”, com o novo. E o atrator, a força que enfeitiça o olhar.

Foi uma palestra suave e densa, despretensiosa e culta, além de inteligente e com leves “estupores”.

 

 

 

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Fotos da autora do blog.


Ney Matogrosso em Natal

8 de maio de 2011

 

 

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Buscando o conceito de Maximo Canevacci, poderíamos dizer que o show de Ney Matogrosso é um “estupor” (“estupor é aquele instante de incerteza, no qual não se sabe o que poderá acontecer, quando o rosto abre cada órgão ( olho, boca, nariz, orelhas, pele, sexo ) para acolher aquilo que está para chegar. É como se o desejo possível fosse sempre antecipado pelo estupor – como se o preparasse”). Ele pisa no palco e nos atrai, nos magnetiza.

 

 

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Ney Matogrosso no palco é o próprio exemplo de um “atrator” vivo, não virtual, impossível tirar os olhos sobre ele (todo atrator é, de qualquer modo, uma alteração do olho”).

 

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A sensualidade sempre foi sua isca no palco, apesar do tempo, ele continua com um corpinho ( próximo aos setetinha) enxutíssimo. Não pude deixar de registrar.

 

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Fotos da autora do Blog.


Caiçara

19 de abril de 2011

 

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Participar das aulas de campo do curso de fotografia da HUMA é sempre uma boa aventura. Os lugares escolhidos pelo professor não são comuns, muito menos o percurso até lá. Nunca é possível fazer o trajeto planejado num carro comum, no mínimo um bom 4×4. Assim, começa a viagem.

Desta vez fomos a Caiçara do Norte, região praieira. A primeira parada foi fotografar uma revoada de pássaros que nos surpreendeu.

Não consegui, só cheguei até a cerca. Porém experimentei o exercício de paisagens planas. As paisagens litorâneas são de céu aberto, como as veredas sertanejas descritas por Euclides da Cunha: “Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas”.

 

 

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Pois assim, fomos desbravando as planuras francas do litoral, onde em alguns trechos o sertão se encontra com o mar. Os cactos e a vegetação de terras secas namora com o mar.

Qualquer caminho é possível.

 

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Chegando no praia._DSC1235

As praias são desertas, vastas, belas, mostrando um horizonte que quebra como um corte de navalha o céu e o mar. Tudo é domínio, a terra também se impõe sobre o céu de nuvens carregadas. A paisagem parece pintura, a pintura parece paisagem.

 

 

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Um encontro casual. Um homem retocava a pintura de um barco sob um sol escaldante e o olhar atento do cachorro.

 

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Para o cachorro, qualquer intruso era necessário demarcar o terreno.

 

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Olhando de perto, apenas poucos pedaços de madeira se faz uma jangada. E é nesse frágil e mínimo transporte ainda que alguns homens enfrentam o mar.

 

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Para nós que estamos em terra firme, não deixa de nos emocionar. Simultaneamente tão frágil e tão forte, tão belo e tão entregue ao mar.

 

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Um mar que pode enganar, agora tão manso, que até nos convida para mergulhar.

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Na vastidão do mar lá vai o homem, sozinho. Lembro o poema de Sophia de Mello:

“Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o mar imenso solitário e antigo,

Parece bater palmas”.

 

 

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Chegamos no nosso destino. Um lugar dirigido pelo farol, que imponente nos sinaliza: é aqui o lugar.

 

 

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As crianças nos convidam a ficar.

 

 

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O verde invade as areias finas e móveis das dunas, como um pedido para se sentar. Os cheiros se misturam com as flores do cajueiro.

 

 

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“A raiz da paisagem foi cortada.

Tudo flutua ausente e dividido,

Tudo flutua sem nome e sem ruído”.

Termino fotografando o clichê, fazer o quê? Recompenso com outro poema de Sophia de Mello:

“Poema de geometria e de silêncio

Ângulos agudos e lisos

Entre duas linhas vive o branco”.

 

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O que não falta no pescador é a coragem e navegar nem que seja num simples espaço de madeira é a regra.

“Os que avançam de frente para o mar

E nele enterram como uma aguda faca

A proa negra dos seus barcos

Vivem de pouco pão e de luar”.

Esse homem com certeza pode pensar:

“Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar”.

 

 

 

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Como um pinco na vasta areia fina das dunas, estava esse menino a nos observar, seu corpo como se balançava entre a areia e o som do mar.

“A música do ser

Povoa este deserto

Com sua guitarra

Ou com harpas de areia”.

 

 

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Essa foi a lua máxima que a minha câmera me deu.

“Entre a terra e os astros, flor intensa,

Nascida do silêncio, a lua cheia

Dá vertigens ao mar e azula a areia,

E a terra segue-a em êxtase suspensa”.

 

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Porém o sol me recompensou. Esse pôr-do-sol estava belo, exuberante.

“Quem como eu em silêncio tece

Bailados, jardins e harmonias?

Quem como eu se perde e se dispersa

Nas coisas e nos dias?”

 

 

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Já estávamos fechando as máquinas, quando fui surpreendida por essas três meninas, que posaram para nossas câmeras. Depois, na ampliação no computador observei os três olhares.

 

( foto abaixo) A primeira da ponta do mar, um olhar incerto, mais confiante; a menina do meio, um olhar determinado e a ultima no primeiro plano, um olhar já dolorido, sofrido e suspenso, que deu o tom da fotografia.

 

 

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“Tão breve o começo

Tão cedo negado

Dancei no avesso

Do tempo bailado

Dançarina fui

Mais nunca bailei

Deixei-me ficar

Na prisão do rei

Onde o mar aberto

E o tempo lavado?

Perdi-me tão perto

Do jardim buscado”.

 

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Depois fomos ao exercício de fotografar com a luz. Fiz quase tudo errado. No escuro não via os comandos da câmera e como também estava estreando o uso do tripé, foi outro desastre, todos os horizonte despencaram, um horror. Outro dia eu chegarei bem nessa tarefa.

 

 

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Na manhã seguinte, ainda as cinco da manhã já estávamos na praia, com máquinas, tripés, tudo armado a espera do nascer do sol. Fotografar paisagens, natureza, não tem como acordar ao meio dia, a luz ideal é a que nasce e a que se põe.

As nuvens carregadas de chuvas estavam definindo o horizonte. Porém, o sol reinou e as águas no mar de um azul intenso nos deu bom dia.

 

 

 

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“Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo”.

 

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Mais chegou à hora de voltarmos para casa. Pela sombra do coqueiro reconheço o meu caminho, a minha volta ao meu cotidiano que já não é o mesmo.

 

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“Dormem na praia os barcos pescadores

Imóveis mas abrindo

Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico

Rói a solidão”.

 

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Todos os poemas são de Sophia De Mello Breyner, no livro “Poemas escolhidos”, organização de Vilma Arêas. Companhia das Letras, 2004.

Todas as fotografias são minhas ( exercício fotográfico).Angela Almeida


Aula prática de fotografia

9 de abril de 2011

 

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Mês de abril. Local: em Acari, na estação de energia da cidade. Uma bela tarde com a chuva chegando, lá do alto, as serras ao  alcance do nosso olhar.

São as chuvas chegando no sertão e os cheiros das flores de mufumbo ou as lavandas silvestres nos inebriando.

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Nessa tarde, estávamos com sorte, a natureza resolveu nos presentear com belos cenários para fotografar.

 

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Barragem do Gargalheiras.

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A cidade ao longe e a chuva chegando em duas frentes.

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O tempo fechando, porém um fio de luz ainda ilumina algumas serras.

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A turma a posto procurando os melhores ângulos.

 

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No dia seguinte, fizemos uma caminhada de uma hora e meia subindo uma serra, por trás do Gargalheiras.

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A natureza  explodindo de beleza, um sertão verde exuberante.

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Nossa tarefa: subir essa serra, dominá-la com os nossos pés.

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No meio do caminho.

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Quase no céu.

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Nossa guia, Angelina, nos fotografando. Estávamos quase no topo da serra.

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Foto de Valiete Bassini. Todos cansados, porém felizes.

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Vocês não imaginam o cheiro dessa mata.

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Aqui Angelina nos ensina a música que vem dos cactos. Você passa  a mão no cacto e emite um som de cachoeira, de águas descendo, impressionante.

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Chegamos na casa de seu Leite de Peba e dona Maria, um casal de idosos que resolveram morar distante, muito distante, de qualquer urbanidade e tecnologia. Nessa casa não tem energia. Porém há o essencial para viver,  uma fonte de água pura e gelada que brota entre as pedras.

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Uma escolha de vida.

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Seu José Felipe ( Leite de Peba) e dona Maria Isabel.

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Dona Maria fez um cuscuz  nesse fogo à lenha, molhado com leite de gado fresco e manteiga da terra, um sabor inesquecível.

 

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Aqui até os bichos são contemplativos.

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A mula come na entrada da casa.

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O cachorro descansa na sombra das árvores.

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Os patinhos zen, só observam, nem se mexem.

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Um detalhe da estética sertaneja. As fotos na parede se misturam entre o sacro e o profano. São imagens de santos, políticos, mortos, vivos, objetos. Nada obdece a geometria do alinhamento, ao contrário, há uma outra métrica medida a partir do gosto de cada um.

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Mesmo optando em morar longe da urbanidade, a urbanidade a partir da roupa vem até eles. Pois o ato de ir  a cidade comprar roupas o fazem escolher modelos impostos pelo consumo.

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A única fonte de luz ( um lampião) na casa de seu Leite de Peba.

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Como disse Oswaldo Lamartine:

“ Cada vivente tem o seu sertão. Para uns são as terras além do horizonte e para outros, o quintal perdido da infância”.

 

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“Bem que eu queria. Quem me dera a dureza da aroeira, a floração do pau-dárco, a sombra da oiticica, o cheiro do camuru – isso para não falar nos espinhentos. Me bastava ser talvez uma imburana”.

 

Grupo de alunos da HUMA Escola de Fotografia que participaram da viagem: Eu ( Angela Almeida), Ana Carmem, Elisangela da Costa, Edson do Carmo, Ivanilde Garcia, Juliane Caroline, Tânia Ricciardi, Bruno Leonardo, Simone Sodré e Valiete Ribeiro.

Professor: Hugo Macedo.


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