
Participar das aulas de campo do curso de fotografia da HUMA é sempre uma boa aventura. Os lugares escolhidos pelo professor não são comuns, muito menos o percurso até lá. Nunca é possível fazer o trajeto planejado num carro comum, no mínimo um bom 4×4. Assim, começa a viagem.
Desta vez fomos a Caiçara do Norte, região praieira. A primeira parada foi fotografar uma revoada de pássaros que nos surpreendeu.
Não consegui, só cheguei até a cerca. Porém experimentei o exercício de paisagens planas. As paisagens litorâneas são de céu aberto, como as veredas sertanejas descritas por Euclides da Cunha: “Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas”.


Pois assim, fomos desbravando as planuras francas do litoral, onde em alguns trechos o sertão se encontra com o mar. Os cactos e a vegetação de terras secas namora com o mar.
Qualquer caminho é possível.

Chegando no praia.
As praias são desertas, vastas, belas, mostrando um horizonte que quebra como um corte de navalha o céu e o mar. Tudo é domínio, a terra também se impõe sobre o céu de nuvens carregadas. A paisagem parece pintura, a pintura parece paisagem.


Um encontro casual. Um homem retocava a pintura de um barco sob um sol escaldante e o olhar atento do cachorro.

Para o cachorro, qualquer intruso era necessário demarcar o terreno.

Olhando de perto, apenas poucos pedaços de madeira se faz uma jangada. E é nesse frágil e mínimo transporte ainda que alguns homens enfrentam o mar.

Para nós que estamos em terra firme, não deixa de nos emocionar. Simultaneamente tão frágil e tão forte, tão belo e tão entregue ao mar.

Um mar que pode enganar, agora tão manso, que até nos convida para mergulhar.

Na vastidão do mar lá vai o homem, sozinho. Lembro o poema de Sophia de Mello:
“Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas”.

Chegamos no nosso destino. Um lugar dirigido pelo farol, que imponente nos sinaliza: é aqui o lugar.

As crianças nos convidam a ficar.

O verde invade as areias finas e móveis das dunas, como um pedido para se sentar. Os cheiros se misturam com as flores do cajueiro.

“A raiz da paisagem foi cortada.
Tudo flutua ausente e dividido,
Tudo flutua sem nome e sem ruído”.
Termino fotografando o clichê, fazer o quê? Recompenso com outro poema de Sophia de Mello:
“Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco”.

O que não falta no pescador é a coragem e navegar nem que seja num simples espaço de madeira é a regra.
“Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar”.
Esse homem com certeza pode pensar:
“Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar”.

Como um pinco na vasta areia fina das dunas, estava esse menino a nos observar, seu corpo como se balançava entre a areia e o som do mar.
“A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia”.

Essa foi a lua máxima que a minha câmera me deu.
“Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtase suspensa”.

Porém o sol me recompensou. Esse pôr-do-sol estava belo, exuberante.
“Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?”

Já estávamos fechando as máquinas, quando fui surpreendida por essas três meninas, que posaram para nossas câmeras. Depois, na ampliação no computador observei os três olhares.
( foto abaixo) A primeira da ponta do mar, um olhar incerto, mais confiante; a menina do meio, um olhar determinado e a ultima no primeiro plano, um olhar já dolorido, sofrido e suspenso, que deu o tom da fotografia.

“Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado
Dançarina fui
Mais nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei
Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado”.

Depois fomos ao exercício de fotografar com a luz. Fiz quase tudo errado. No escuro não via os comandos da câmera e como também estava estreando o uso do tripé, foi outro desastre, todos os horizonte despencaram, um horror. Outro dia eu chegarei bem nessa tarefa.

Na manhã seguinte, ainda as cinco da manhã já estávamos na praia, com máquinas, tripés, tudo armado a espera do nascer do sol. Fotografar paisagens, natureza, não tem como acordar ao meio dia, a luz ideal é a que nasce e a que se põe.
As nuvens carregadas de chuvas estavam definindo o horizonte. Porém, o sol reinou e as águas no mar de um azul intenso nos deu bom dia.




“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”.

Mais chegou à hora de voltarmos para casa. Pela sombra do coqueiro reconheço o meu caminho, a minha volta ao meu cotidiano que já não é o mesmo.

“Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão”.

Todos os poemas são de Sophia De Mello Breyner, no livro “Poemas escolhidos”, organização de Vilma Arêas. Companhia das Letras, 2004.
Todas as fotografias são minhas ( exercício fotográfico).Angela Almeida