Henri Fantin-Latour ( 1890)
…fui assim, procurar outras Alices. Percorri caminhos de memórias, de leituras, entre crenças, mitos, imaginários, verdades, realidades e incertezas. Por exemplo, encontrei as Alices de Atenas. A Atenas de Péricles, onde elas eram confinadas na penumbra do interior de suas moradas, enquanto os jovens guerreiros exibiam seus corpos quase nus em batalhas e em lugares públicos outros homens trajavam roupas largas que expunham seus corpos livremente. A fisiologia grega apostava no calor do corpo para ditar regras de dominação e subordinação. Os homens eram reconhecidos como corpos quentes e as mulheres, corpos frios, não dando assim a elas nenhum direito a qualquer nudez pública.
Entretanto o sol que queimou a pele dos “homens atenienses” aqueceu o coração daquelas mulheres enclausuradas.
As Alices ultrapassaram os tempos, os portos, as linguagens, as culturas, os começos e os recomeços. Aportaram na modernidade em pé de igualdade com o sexo oposto. Na mesma condição daquele homem descrito por Nietzsche, como o homem com a corda estendida sobre o abismo. Porém as Alices não perderam a doçura de encantar os homens ( mesmo tendo o imprinting do enclausamento). O próprio Nietzche quando encontrou pela primeira vez Lou Andreas-Salomé, disse já encantado: “De que estrelas caímos nós para nos encontrar aqui?”
Algumas Alices podem até ter a plasticidade fria, frívola e bela das mulheres de Tamara Lempicka ( artista nascida em Varsóvia em 1899). Porém, todas as Alices estão sempre prontas para serem metamorfoseadas em sorrisos diáfanos ou corpos desejantes. Alices cujos corpos guardam os cantos das luas, os limos das areias, as estrelas cadentes, as primeiras águas, os lugares secretos da casa onde choraram o primeiro amor e as esperanças encalhadas nos confins do olhar.
Até mesmo as Alices em silêncio, no vazio dos dias, nos desejos ácidos da noite, na memória dos tempos sem palavras, no nada para sonhar. Quaisquer que sejam as Alices, elas sempre são capazes de amar e derreter o corpo quente dos Domingos/ Atenienses. Ah, sem esquecer que até a Alice de Lewis Carroll fez o gato sorrir.
Angela Almeida
2009
Édouard Manet
Tamara Lempicka








