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Alices

14 de janeiro de 2010

 

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Henri Fantin-Latour ( 1890)

 

…fui assim, procurar outras Alices. Percorri caminhos de memórias, de leituras, entre crenças, mitos, imaginários, verdades, realidades e incertezas. Por exemplo, encontrei as Alices de Atenas. A Atenas de Péricles, onde elas eram confinadas na penumbra do interior de suas moradas, enquanto os jovens guerreiros exibiam seus corpos quase nus em batalhas e em lugares públicos outros homens trajavam roupas largas que expunham seus corpos livremente. A fisiologia grega apostava no calor do corpo para ditar regras de dominação e subordinação. Os homens eram reconhecidos como corpos quentes e as mulheres, corpos frios, não dando assim a elas nenhum direito a qualquer nudez pública.

Entretanto o sol que queimou a pele dos “homens atenienses” aqueceu o coração daquelas mulheres enclausuradas.

As Alices ultrapassaram os tempos, os portos, as linguagens, as culturas, os começos e os recomeços. Aportaram na modernidade em pé de igualdade com o sexo oposto. Na mesma condição daquele homem descrito por Nietzsche, como o homem com a corda estendida sobre o abismo. Porém as Alices não perderam a doçura de encantar os homens ( mesmo tendo o imprinting do enclausamento). O próprio Nietzche quando encontrou pela primeira vez Lou Andreas-Salomé, disse já encantado: “De que estrelas caímos nós para nos encontrar aqui?”

Algumas Alices podem até ter a plasticidade fria, frívola e bela das mulheres de Tamara Lempicka ( artista nascida em Varsóvia em 1899). Porém, todas as Alices estão sempre prontas para serem metamorfoseadas em sorrisos diáfanos ou corpos desejantes. Alices cujos corpos guardam os cantos das luas, os limos das areias, as estrelas cadentes, as primeiras águas, os lugares secretos da casa onde choraram o primeiro amor e as esperanças encalhadas nos confins do olhar.

Até mesmo as Alices em silêncio, no vazio dos dias, nos desejos ácidos da noite, na memória dos tempos sem palavras, no nada para sonhar. Quaisquer que sejam as Alices, elas sempre são capazes de amar e derreter o corpo quente dos Domingos/ Atenienses. Ah, sem esquecer que até a Alice de Lewis Carroll fez o gato sorrir.

Angela Almeida

2009

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Édouard Manet

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Tamara Lempicka

Lugares da arte – Fernando Gurgel

14 de janeiro de 2010

 

Escrevi esse texto a pedido de Fernando Gurgel para inserir no catálogo de sua expoisição.

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Lugares onde o homem tangencia o mundo e a si mesmo – disse o escritor Michel Leiris falando sobre a arte da tauromaquia. Tomo as palavras dele como minhas para dizer sobre a obra de Fernando Gurgel. Uma obra que fala essencialmente de lugares onde o homem não só tangencia o seu mundo, como também os lugares de bifurcações, sobreposições, aproximações, encruzilhadas de linhas e formas onde transeuntes simultaneamente se encontram se tocam (se possível), se vêem e retornam às suas singularidades, porque não dizer, solidões. Tangencia peças que se encaixam e se desencaixam numa tensão na acumulação e na dissipação das imagens no absoluto momento do olhar.

Fernando Gurgel é um artista que constrói imagens que nos leva a perceber uma ligação do homem com o seu mundo sob o impulso da transitoriedade do real operando assim um pacto, mesmo que seja por formas fragmentárias; de uma troca de pedaços de existência. Constrói lugares onde se operam o oculto e visível, o limpo e o espacial; onde nascem lentamente cinzas, brancos e suavemente pretos. Espaços entre os humanos e a impermanência das relações.

Uma obra que avança para tocar no mais íntimo do humano. E um humano sem suas máscaras utilitárias, talvez exatamente por isso não necessitem de traços de identidade, porque são simultaneamente coletivos e individuais. Porém tudo vem de sua infância, como ele mesmo confessa: “Uma coisa que sempre gostei foi de observar o cotidiano, desde criança. Os vendedores de rua sempre foram motivos de trabalho na minha obra. Assim como a técnica do recorte, da colagem que também vem da minha infância. Quando eu transformo essas imagens em arte entra o meu vocabulário interno”. Assim Fernando vai instaurando sua arte em lugares cotidianos, construído de humanos que se aventuram a comungar uns com os outros sem esquecer de mergulhar em si mesmos, exaltando uma premissa: minha solidão conhece a sua.

Angela Almeida

agosto de 2008

Maria Cheung

14 de janeiro de 2010

 

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Maria Cheung é  uma dessas pessoas que a gente gosta de cara.  Uma pessoa singular, linda, suave e uma grande artista. Uma artista de alma grande e um trabalho delicado e muito forte.

Escrevi na época ( 1999) esse texto para o convite/catálogo de sua exposição individual no NAC-UFRN.

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Nui

Com uma aparência delicada e tímida, Maria Cheung foi mostrando seus trabalhos e logo estávamos falando a mesma língua, isto é, a da sua arte, que traz uma dimensão da cultura chinesa e fala de um feminismo universal.
Persistindo na dialética entre o local (a China em que nasceu) e o global, entre o sujeito(ela mesma) e o objeto (seus pés moldados), entre o real e o imaginário, Maria provoca, expõe o desejo feminino.
Na sua obra, imagem, forma e matriz são figuras, não no sentido figurativo , mas na acepção que Lyotard atribui ao "figural",isto é, pertencente à ordem dos sentidos.
Nas meias finas transparentes, em ligas pretas a calçar os pés brancos, explode uma energia que se move no espaço – tempo sem fronteiras do inconsciente e realça-se a libido na procura de satisfação do desejo.
A dimensão estética de sua obra pertinente aos sentidos é essencialmente poética e visceralmente feminina.
Esta não é uma exposição de quadros , objetos que possam ser adquiridos. Esta é uma exposição onde a arte assume a sua especificidade como linguagem , e as idéias de tradição e cotidiano são expostas em uma nova territorialidade, incorporada de materiais e procedimentos dos mais diversos, que se transforma em algo temporal, que os tornam mais próximos da vida humana e das contingências reais.
Temos assim o prazer de trazer a Natal essa peculiar e instigante obra de Maria Cheung

Ângela Almeida

Al Berto

12 de janeiro de 2010

Fui apresentada a obra de Al Berto por um amigo, há anos atrás. Na época procurei seus livros nas livrarias, porém não encontrei nada. Então resolvi surrupiar o livro do meu amigo, “Horto de Incêndio”, editora Assírio Alvim.

Quando estive em Portugal, em maio de 2009, um dia perambulando pelo Chiado, descobri um tipo de livraria improvisada com saldos de livros da editora Assírio Alvim. Lá estavam vários livros de Al Berto. Foi uma festa, comprei todos a preço de banana.

Assim, passei o ano de 2009 degustando em pequenas doses os poemas de Al Berto.

Ele viveu muito pouco, morreu aos 49 anos, em 1977. Através de sua poesia podemos constatar seu amor pelos lugares e bairros de Lisboa e arredores.

Sua poética caminha entre a poesia e a prosa. Às vezes profundamente melancólica e muitas vezes com certa acidez. Alguns de seus poemas são como faca amolada que vai penetrando na nossa pele a procura do mais íntimo.

Ele tinha uma relação afetuosa com o mar e a vila Sines (antiga comunidade de pescadores). Tinha saudade desses lugares que o tempo modificou. Por exemplo, um texto que é fragmento de um diário, chamado “Quinta de Santa Catarina”, onde a indicação do local é tão relevante quanto à poética:

“a casa foi abandonada, permanece vazia. duma janela avista-se outra janela. o interior é húmido e escuro. onde uma porta enquadra outra porta não se pressentem mais sinais de vida. apenas flutuam aromas, presenças tênues de corpos. o olhar demora-se sobre as geometrias musgosas dos tectos. uma sombra desliza junto ao piano, o estuque esfarela-se, cai. ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro das paredes. o olhar aprende a ver na penumbra esverdeada das salas. apura-se o ouvido e o tacto quase consegue delinear a presença dos mortos. perco o medo, caminho de corredor em corredor sem acender uma única luz. consigo chegar à porta do quarto da infância, abro-a. o mar pressente-se a partir de um ângulo de treva, rente à cama. alguém fotografa alguém. o espelho acende o meu reflexo. não me reconheço nele. Existe uma saída secreta que nunca utiliza, nem mesmo na fotografia. cresci com a casa. a infância desapareceu num recanto quase inacessível da memória. nada resta da travessia alegre dos corpos que nela viveram. nem mesmo se encontram sulcos de chuva nos soalhos ainda em bom estado de conservação. nem ossos de alguma ave que tenha servido de alimento, nem cinza ou pedaços de carvão, restos de gordura, nada. a luz continua a entrar pelas frestas das janelas mal fechadas. a noite atravessa a casa até os alicerces de sal. a desolação insinua-se até à medula das madeiras. o olhar escolhe algumas imagens da casa, únicos sinais guardados na meticulosa memória de quem com ela viveu”.

Para ele tudo ao seu redor fazia sentido e podia se transformar em poética, como esse poema dedicado à vila de Sines:

“ é tarde meu amor

estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das máres, na saliva de meu corpo sofrido

agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompe o sono

habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido

dos corais… e no ventre impossível das cidades noctunas

a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande

e morrer contigo

enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas

águas de seda… cantar-te os gestos com ternura

mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro de meu corpo, como um peixe ferido, louco

em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público

aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição

apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras

tristes que te cantam”

Ou esse lindo poema para Rimbaud:

“ todos os pássaros sossegaram.

as crianças desceram das árvores, guardaram os

jogos, recolheram a casa.

a noite está próxima.

levanto a cabeça e deixo a voz deambular por dentro

deste silêncio de água e de estrelas.

a noite está próxima.

deixo o corpo escorregar na poeira luminosa.

acendo um cigarro, ponho-me a falar com o meu fantasma…”

Merleu-Ponty

12 de janeiro de 2010

Só se vê o que se olha

Ensaio entre as palavras de Merleau-Ponty e imagens plásticas e fotográficas.

“Tudo que vejo por princípio está ao meu alcance”.

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“O enigma consiste em meu corpo ser ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também se olhar, e reconhecer no que vê então o “o outro lado” de seu poder vidente. Ele se vê vidente, ele se toca tocante, é visível e sensível para si mesmo”.

“Visível e móvel, meu corpo conta-se entre as coisas, é uma delas, está preso no tecido do mundo, e sua coesão é a de uma coisa. Mas, dado que vê e se move, ele mantém as coisas em círculo a seu redor, elas são um anexo ou um prolongamento dele mesmo, estão incrustadas em sua carne, fazem parte de sua definição plena, e o mundo é feito do estofo mesmo do corpo”.

O mundo é feito do estofo mesmo do corpo

“Um corpo humano está aí quando, entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e o outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento, quando se acende a faísca do senciente-sensível”.

 

“Já que as coisas e meu corpo são feitos do mesmo estofo, cumpre que a visão se produza de alguma maneira nelas, ou ainda que a visibilidade manifesta delas se acompanhe nele de uma visibilidade secreta: “ a natureza está no interior”, diz Cézanne”.

“Eu teria muita dificuldade de dizer onde está o quadro que olho como se olha uma coisa, não o fixo em seu lugar, meu olhar vagueia nele como nos nimbos do Ser, vejo segundo ele ou com ele mais do que o vejo”.

 

“… o pintor, qualquer que seja, enquanto pinta, pratica uma teoria mágica da visão”.

“Essência e existência, imaginário e real, visível e invisível, a pintura confunde todas as nossas categorias ao desdobrar seu universo onírico de essências carnais, de semelhanças eficazes, de significações mudas”.

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“Se nenhuma pintura completa a pintura, se mesmo nenhuma obra se completa absolutamente, cada criação modifica, altera, esclarece, aprofunda, confirma, exalta, recria ou cria antecipadamente todas as outras”.

***

Fragmentos de textos retirados do livro “O olho e o espírito” de Maurice Merleau-Ponty. Cosac Naify, 2004. Imagens de obras de: Cézanne, Van Gogh, Matisse e fotografia de Matisse.

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