Vilém Flusser nasceu em 1920 em Praga, antiga Tchecoeslováquia.
A invasão nazista o forçou a fugir, em 1939, junto com a namorada na época, Edith Barth, primeiro para a Inglaterra, depois para o Brasil.
Seu pai, sua mãe e sua irmã foram assassinados nos campos de concentração.
Essa sua situação de exilado e sua obra posteriormente construída, fez com que autores definissem sua obra a partir de uma crítica radical da identidade. Vilém Flusser ver esses migrantes como modelo para uma ação criadora.
É interessante que Boris Cyrulnick, quando aqui esteve, o mês passado, numa entrevista a uma jornalista, ele coloca a salvação de um grande trauma é a ação criação. Ele chama essa ação ou movimento de “resiliência”, a superação de um trauma, não é esquecer, porque esquecer é reprimir, é construir ações criadoras.
Vilém Flusser casa com Edith aqui no Brasil, tem três filhos e na década de 50 naturaliza-se brasileiro.
Em 1960, passa a se dedicar também a filosofia. Ele não tem diploma, apenas com a cara e a coragem e o saber acumulado de um autodidata, começa a lecionar na FAAP, no ITA e na USP, como também escrever para os jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
Ele começa a publicar sua obra, ele escreve em quatro línguas, na ordem: alemão, português, inglês e francês. Ele não tem tradutores, na época. O que ele publicou quando estava vivo, ele mesmo traduziu para essas línguas.
O seu livro Filosofia da Caixa Preta é traduzido hoje em mais de 15 línguas.
Em 1991, volta a Praga, pela primeira vez depois do exílio, para proferir uma palestra no Instituto Goethe. A conferência o emociona tanto que no meio ele começa a falar em português, e o público espantado. A mulher avisa a ele, e a conferência é um grande sucesso. No dia seguinte, ele vai passear de carro para rever os lugares de infância, o que sobrou e morre num acidente, a mulher se salva.
Vilém Flusser é um pensador-poeta, que tem um pensamento singular sobre as mídias. Foi um leitor admirador de Guimarães Rosa e o seu sobrenome significa o fluir de um rio –fluss, em alemão.
Publicou mais de trinta livros, os mais importantes publicados em português estão:
Língua e Realidad / A História do Diabo / Bodenlos /Filosofia da Caixa Preta / O Mundo Codificado /O Universo das Imagens Técnicas…
Seus livros não têm nota de rodapé, ele não cita autores nem lista uma bibliografia.
Ele é um pensador original e controverso.
O Universo das Imagens Técnicas
De acordo com Flusser, língua e imagem são duas dimensões da realidade que possuem a mesma função: o armazenamento de informações.
O resultado desse armazenamento de informação característico do ser humano é a cultura.
Como ele explica cultura. Ele diz que nós seres humanos somos cercados de coisas de espécies ontológicas diferentes, nesse mundo.
São os objetos e as coisas inanimadas, que são obstáculos na vida.
A outra coisa são os próprios seres humanos que podemos lidar um com o outro dialogicamente.
Sobre os objetos podemos reagir a eles, enfrentá-los, percebendo assim nossas diferenças, entre humanos e objetos.
Então, esses objetos, podemos ser dependentes deles, presos a eles ou conseguir enxergá-los criticamente.
Daí ele separa cultura e natureza, porém no sentido que ele especifica que nos reconhecemos na cultura e a natureza desejamos conhecê-la.
O termo cultura ele explica que pode ser entendido como a forma como manipulamos os objetos. Essa forma é ordenada por modelos. E esses modelos podem ser: epistemológicos, éticos e estéticos. Estéticos as obras de arte, os éticos, os objetos úteis e os objetos que atestam determinado conhecimento – os epistemológicos.
Flusser estrutura etapas Históricas para falar de cultura e imagem. Ele classifica como a época Pré-Histórica, quando a imagem pictórica era uma forma predominante de linguagem. O meio de armazenar informações.
Imagens pictóricas são imagens clássicas, realizada pelo homem a partir de materiais orgânicos.
São objetos resultados de um esforço de abstrair as dimensões espaço-tempo para se conservar apenas no plano.
Pela nossa capacidade de imaginar é que somos capazes dessa tarefa de decodificar e codificar as imagens.
Porém essa facilidade que a imaginação nos dá em abstrair e compreender, para Flusser, resulta num problema.
O processo de contemplarmos uma imagem, vem colado uma certa superficialidade. Porque naturalmente o olhar capta apenas a aparência do conteúdo daquela imagem.
Para Flusser entender a imagem é necessário conhecer a reconstituição das dimensões abstratas no momento da feitura da imagem.
Esse é o grande argumento do livro dele Filosofia da Caixa Preta.
Ele usa a expressão “scanning”, estabelecer uma relação temporal com elementos da imagem.
Então, ele procura a intencionalidade tanto da imagem como do observador que se juntem e forneçam um significado consistente.
Quando essas imagens chegam a nós sem esses significados, elas são para nós como “tapumes”, entre nós e o mundo.
É como se não tivesse uma permissão de decifrar o conteúdo da imagem.
Então esse montante de imagens não significadas, pode criar uma situação de idolatria, que é a alienação humana, porque a imagem deixa de orientar.
Não há reconstituição das dimensões abstraídas das imagens.
Então ele diz que quando as imagens passaram a ser “biombos” entre o homem e o mundo, foi criada a escrita.
Porém os textos são muito mais distantes da realidade.
Os textos nos levam a decodificar imagens e imagens nos levam a decodificar textos.
Para Flusser a escrita cria um tempo novo no pensamento. Você começa a pensar por processos.
As linhas escritas elas tem uma direção, é diferente do olhar uma imagem, se toma por inteiro. A escrita faz o homem começar a representar o mundo de outra forma.
Pela escrita dos primeiros escribas nasce a semente do tempo histórico.
Com a criação da imprensa e da escola, alargar a consciência histórica.
O que aconteceu com as imagens tradicionais? Elas foram um pouco retiradas do cotidiano das pessoas, ela passou a não ser a força determinante de armazenar informações.
Foi criado assim os museus públicos e guetos para alojar as imagens tradicionais.
Há um crescimento da escrita e um movimento contra as imagens pictóricas de certa forma.
Porém , depois vem a criação das imagens técnicas, o cinema, a fotografia.
A era da reprodutibilidade das imagens técnicas. Walter Benjamim, muito bem escreveu sobre esse acontecimento.
As imagens técnicas caminham contra os textos.
A diferença entre imagem técnica e imagem pictórica.
As imagens técnicas são imagens produzidas, passadas por máquinas, aparelhos, e o mais relevante são produtos da escrita digitalmente decodificados.
A imagem técnica é representação dos textos científicos. A construção da imagem técnica é cientifica. É como se tivéssemos transformado os conceitos em cenas.
Então Vilém Flusser coloca que as imagens técnicas emanciparam o homem da necessidade de pensar conceitualmente.
E o novo papel de re-imaginar o mundo, retirando a importância dos textos, substituindo por imagens e retirando conseqüentemente o antigo conceito de consciência histórica.
E o que essas imagens trouxeram foi uma pós-história.
Quando ele vai analisar as imagens técnicas ele vai mexer com a turma dos semióticos.
Então ele vai dizer que as imagens técnicas não são simbólicas, como as imagens tradicionais.
Que as imagens técnicas casualmente estão ligadas ao seu significado.
Porque as imagens técnicas se projetam sobre o mundo. Porque quando contemplamos uma imagem técnica não é o mundo, mas determinados conceitos relativos ao mundo.
E como são símbolos produzidos por aparelhos, para decifrá-los é necessário reconstituir os textos que criaram aquela imagem. E qual será a mediação para fazer isso? Aí as respostas estão no livro Filosofia da Caixa Preta. Para ele é como se existisse uma caixa preta entre a realidade e a imagem.
Para ele nas imagens tradicionais é fácil perceber que são simbólicas, pois existe um ser humano, com as suas subjetividades entre a realidade e a imagem construída.
Apesar, é claro, que por trás da máquina existir o homem, para ele há uma simbolização questionada, e o problema estar nesse questionamento, porque não conhecemos todos os mecanismos das imagens técnicas. Da sua construção.
Ele reconhece que estamos vivendo o auge das imagens técnicas e que elas retiram o conteúdo dos textos de onde elas nascem e simplificam esses conceitos ao extremo e de alcance em grande escala, daí a superficialidade das imagens técnicas. E outro mal que ele ver é que elas falseiam a cultura.
Angela Almeida – 2009


