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Oração

23 de março de 2011

 

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( poema de Iracema Macedo)

 

Agradeço esse dia e todas as suas sombras

e o que me tocou como foice

e a face delicada que mostrei

 

Agradeço essa febre

o riso que espalhei sobre as águas

a beleza que busquei

e a vida que desejei com tanta força.

 

 

( poema postado no blog:foliasofia.blogspot.com de autoria  de Iracema Macedo no dia 8 de março de 2011)

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Fotografia: Rio Potengi/ Natal/ RN- Angela Almeida

Poesia de Diva Cunha

22 de novembro de 2010

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Certas mulheres catam coisas pequeninas

conchas, feijões, letras

 

outras distraem-se nos espelhos

contam rugas

 

algumas contam nuvens

criam cachorros e gatos como crianças

 

certas mulheres guardam mágoas

ressentimentos, botões, elásticos

 

algumas são como certos homens

não contam nada

ocupadas com coisas incontáveis

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Jean-Léon Gérôme ( 1824-1904)

Sophia de Mello

25 de janeiro de 2010

 

Fiz essas fotos numa tarde de domingo em Pipa ( 24/01/2010). Não sou fotógrafa, é apenas um puro deleite. Gosto de fotografar detalhes, pedaços, sombras das coisas e da natureza, pouca coisa ganha forma total. Aprendi isso lendo Inês Pedrosa ( escritora portuguesa) em seu romance “Carta a Uma Amiga”.

Assim atrevidamente junto aqui as fotos com os poemas de  uma outra grande poeta portuguesa:

Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

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De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

 

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Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o mar imenso solitário e antigo,

Parece bater palmas.

 

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Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar.

 

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Um mar horizontal corta os espelhos

E um sol de sal cintila sobre a mesa.

Habitamos o ar livre rente ao dia

Rente ao fruto rente ao vinho rente às águas

E sob o peso leve da folhagem

 

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Tive amigos que morriam, amigos que partiam

Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.

Odiei o que era fácil

Procurei-me na luz, no mar, no vento.

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Num deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua

 

Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda do que a  tua.

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Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante

E brilha sobre campos mais floridos

Mas os olhos que vêem essas maravilhas

São olhos apodrecidos.

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Reino de medusas e água lisa

Reino de silêncio luz e pedra

Habitação das formas espantosas

Coluna de sal e círculo de luz

Medida da Balança misteriosa

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A raiz da paisagem foi cortada.

Tudo flutua ausente e dividido,

Tudo flutua sem nome e sem ruído.

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Todos esses poemas estão no livro: Poemas Escolhidos / Sophia de Mello Breyner Andresen; organização Vilma Arêas – São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

GUSTAVO DE CASTRO

21 de janeiro de 2010

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Por ser puta da Poesia, aceito no meu peito qualquer coração.

Recebi pelo correio um envelope pardo, fininho que logo me chamou a atenção entre as outras correspondências. Virei o verso e li  o nome do remetente e o endereço da cidade de Brasília. Um endereço assim: ANC09 C.21Tag Norte BSB. Talvez só um carteiro entenda bem isso. Porém é Brasília. Pois bem, nesse endereço mora um poeta dessas bandas de cá do nordeste, Gustavo de Castro. O remetente do envelope e que me mandou  o seu mais novo livro: Poemas Vis.

Um livro de capa branca, singelo, com a figura de um anjo em preto e branco impresso. Um objeto pequeno, magrinho, ótimo de segurar nas mãos, que me lembrou um pequeno missal. Fiquei um tempo analisando-o, apalpando-o. Gosto inicialmente de observar os livros como objeto. Lembrei-me que Gustavo teve uma passagem pelo clero. Será que a escolha do formato do livro tem alguma referência a esse passado? Ou só sou eu que fico a criar ligações no ar. Na sua dedicatória vinha escrito: “… Alguns quadros da minha dor…”. A Via Crúscis?

É, talvez esse pequeno missal exiba a via crúcis do próprio poeta, o caminho em torno de si mesmo e o embate com a poesia. Ele declara em um de seus poemas: “… O nada para ser nada / necessita ser homem / já não necessita nada”.

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O primeiro poema do livro:

 

“Prostitui a minha língua no Desconhecido. Abri as pernas ao canto e me deixei penetrar pela Noite.
Com meu casaco de pele de angústias, dei longas voltas no quarteirão do Nada.
A cada passo, o estado ermo, sumido; era o semblante do meu Narciso.
Quando me olhei no espelho, estava atordoado. Que veem os mortos na superfície do lago?
Ando devagar pela calçada do mundo como as putas a espera de clientes que nunca vem.
Vendi meu gozo por contos-de-rés. Corpo que todos tem; coitos-di-versos a todos digo amém!
Fiz sexo com as palavras, mas elas se foram, deixando marcas de baton na minha boca.
Prostitui então minha lábia no falo da Poesia. Só para ter a cada dia uma nova paixão.
Por ser puta da Poesia, aceito no meu peito qualquer coração”.

Gustavo de Castro

Livro: Poemas Vis. Editora: Casa das Musas, 2010.

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