Por ser puta da Poesia, aceito no meu peito qualquer coração.
Recebi pelo correio um envelope pardo, fininho que logo me chamou a atenção entre as outras correspondências. Virei o verso e li o nome do remetente e o endereço da cidade de Brasília. Um endereço assim: ANC09 C.21Tag Norte BSB. Talvez só um carteiro entenda bem isso. Porém é Brasília. Pois bem, nesse endereço mora um poeta dessas bandas de cá do nordeste, Gustavo de Castro. O remetente do envelope e que me mandou o seu mais novo livro: Poemas Vis.
Um livro de capa branca, singelo, com a figura de um anjo em preto e branco impresso. Um objeto pequeno, magrinho, ótimo de segurar nas mãos, que me lembrou um pequeno missal. Fiquei um tempo analisando-o, apalpando-o. Gosto inicialmente de observar os livros como objeto. Lembrei-me que Gustavo teve uma passagem pelo clero. Será que a escolha do formato do livro tem alguma referência a esse passado? Ou só sou eu que fico a criar ligações no ar. Na sua dedicatória vinha escrito: “… Alguns quadros da minha dor…”. A Via Crúscis?
É, talvez esse pequeno missal exiba a via crúcis do próprio poeta, o caminho em torno de si mesmo e o embate com a poesia. Ele declara em um de seus poemas: “… O nada para ser nada / necessita ser homem / já não necessita nada”.
O primeiro poema do livro:
“Prostitui a minha língua no Desconhecido. Abri as pernas ao canto e me deixei penetrar pela Noite.
Com meu casaco de pele de angústias, dei longas voltas no quarteirão do Nada.
A cada passo, o estado ermo, sumido; era o semblante do meu Narciso.
Quando me olhei no espelho, estava atordoado. Que veem os mortos na superfície do lago?
Ando devagar pela calçada do mundo como as putas a espera de clientes que nunca vem.
Vendi meu gozo por contos-de-rés. Corpo que todos tem; coitos-di-versos a todos digo amém!
Fiz sexo com as palavras, mas elas se foram, deixando marcas de baton na minha boca.
Prostitui então minha lábia no falo da Poesia. Só para ter a cada dia uma nova paixão.
Por ser puta da Poesia, aceito no meu peito qualquer coração”.
Gustavo de Castro
Livro: Poemas Vis. Editora: Casa das Musas, 2010.
