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percursos de letras, imagens, sentidos…

4 de dezembro de 2010

Livro: Carta aberta para a muito amada Cidade de Natal

Autor: Dorian Gray Caldas

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Este livro é imbuído pelo espírito transversal de produzir e pensar a arte dialogando com a literatura, a estética, o social e a cultura. Não é uma ideia inédita, vem inspirada no projeto Dulcinéia Catadora (SP), coordenado pela artista plástica Lúcia Rosa, que já se inspirou em Eloísa Cartonera (na Argentina). Aqui ele aporta no FLIPIPA (Festival Literário de Pipa) com características singulares da nossa cultura.

 

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O poema “Uma carta aberta para a amada cidade de Natal” é de autoria do nosso maior expoente das artes plásticas do estado, Dorian Gray. E cada uma das capas foi produzida e criada por crianças (assistidas pelo PETI − Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) residentes na praia de Pipa e Tibau do Sul. Assim, desse entrelaçamento entre autor e crianças, nasceu cada um dos livros. E cada um deles traz imagens, gravuras, vozes, sentidos, memória e palavras da obra plástica e poética de Dorian Gray, além dos traços e a estética de cada criança participante do projeto. Traz também a leveza (calviniana) do mundo, os olhares esparramados de devaneios, às expressões artísticas infantis, as palavras matizadas de tons e cores diversas, além de conteúdos emotivos.

 

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Mais ainda, para que tudo isso se materializasse em livro, várias pessoas e Instituições celebraram parcerias fundamentais. A Editora da UFRN foi a norteadora do projeto, articulando assim as parcerias com o FLIPIPA ( que tão logo incorporou a idéia, coordenação geral: Dácio Galvão), a Cooperativa Cultural da UFRN ( entidade que desde o primeiro momento empreendeu esforços na realização do projeto, sob a direção do Prof. Willington Germano), o Ponto de Cultura Educapipa ( coordenado por Ariane Stigger , que articulou as oficinas com as crianças), o Educapipa( coordenado por Norma Fagundes), a Secretária Municipal de Ação Social de Tibau do Sul e a empresa Lograf ( doadora de todo o papelão utilizado nos livros).

Assim, a Editora da UFRN, além de articular a publicação de produções acadêmicas, está imbuída também da função de promover a cultura e a produção artística do Rio Grande do Norte. Desse modo, quando apostou nesse projeto, pretendeu contribuir com as ações de fomento às expressões artístico-literárias do estado, consolidando, assim, sua presença entre escritores e leitores, amantes e entusiastas das letras.

O caráter inovador dessa experiência em terras locais vem reforçar o ideal de empreender iniciativas arrojadas no meio literário potiguar. A partir dessa obra, busca-se estabelecer um momento, único e marcante, do encontro entre a arte e a cidadania, uma união propulsora de novas ideias, novas brincadeiras, novos jogos.

Aqui, nossa contribuição. Uma obra delicada e simples, feita para aqueles realmente sensíveis e capazes de perceber a beleza.

Praia de Pipa, novembro de 2010.

Angela Almeida

Helton Rubiano de Macedo

Editora da UFRN

Diretor: Herculano Ricardo Campos

 

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Alderley C. Ribeiro

 

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Diógenes dos Santos

 

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Francimere Bezerra

 

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Emilli Cristina de Lima

entre outras.

EM LOUVOR DA SOMBRA – JUNICHIRO TANIZAKI

24 de fevereiro de 2010

 

 

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“Em louvor da sombra” é uma aula de estética, escrita com precisão, sem ambigüidades, profunda, sensível e completamente estimulante.

Tanizaki olha a sua cultura com olhos de poeta, artista e homem comum. Ele narra a partir do momento em que estar construindo uma casa, pois a sua anterior foi destruída por um terremoto. Tanizaki vai da escolha de um modelo de vaso sanitário a maquiagem das mulheres camponesas de sua comunidade. Numa rota de sombras, imagens e sensibilidade.

 

 

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Junichiro Tanizaki

 

Há na sua narrativa certa melancolia, uma espécie de saudade dos velhos hábitos japoneses, porém não se deixa levar por um caminho fechado, ele também observa e compara com a cultura da contemporaneidade. Por exemplo: Ele reconhece os novos materiais para banheiros como mais higiênicos do que os de antigamente, porém para ele as latrinas (banheiros construídos fora de casa) proponham ao usuário uma experiência estética, uma paz de espírito. Ele escreve: ”Construída invariavelmente longe do corpo da casa, à sombra de arbustos e em meio à folhagem e ao musgo de verde fragrância, quando então, acocorado em meio à baça claridade refletida pelo shoji, considero simplesmente indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e me perder em pensamentos… cercado por sóbrias paredes de madeira de requintado veio, pode-se contemplar tanto o céu azul como o verdejante frescor das plantas”.(2007 p.12).

Tanizaki continua:” Com efeito, são lugares propícios para se ouvir o cricrilar de grilos e o gorjeio de pássaros, propícios também para apreciar o luar: neles se sente com penetrante intensidade a passagem das estações e a transitoriedade das coisas terrenas, neles provavelmente poetas de antanho vislumbraram temas para seus haicais. Assim, não considero de todo impossível afirmar que a latrina é a dependência de maior valorização estética da arquitetura japonesa”( 2007 p.13).

Conclui: “… um banheiro ocidental azulejado e com vaso sanitário ligado à rede de água e esgoto é mais higiênico e fácil de manter e, em troca, digo adeus à estesia e à apreciação da natureza” ( 2007 p14).

Sobre a música Tanizaki argumenta: “O mesmo se pode dizer de toca-discos e rádios: caso os tivéssemos inventado, na certa eles ressaltariam as características de nossas vozes e instrumentos musicais. Nossa música primitiva é contida, toda feita de atmosfera. Gravada em disco ou amplificada, perde boa parte de seu encanto. O mesmo se dá com a arte narrativa que, em nosso caso, é realizada em voz baixa, com economia de palavras e, sobretudo, num ritmo peculiar cuja propriedade se perde totalmente em gravações. E então acabamos distorcendo nossa própria arte para que ela se ajuste às máquinas” ( 2007 p.20).

O papel: “ O papel japonês (washi) nos proporciona sensação de tépido aconchego e paz de espírito… não produz ruído ao ser dobrado ou amassado. Manuseá-lo é o mesmo que tocar em folhas de árvores frescas e úmidas” ( 2007 p.20).

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Utensílios: “… nosso gosto é pelo brilho mortiço que remete ao lustro dos anos… Ou seja, é o brilho resultante da contínua manipulação de áreas ou de objetos: tocadas e acariciadas constantemente, tais peças acabam absorvendo a gordura das mãos… Seja como for, as coisas que apreciamos como belas e requintadas têm em sua composição parcelas de sujeiras e desasseio, não há como negar” ( 2007 p. 23).

O ouro: “ O ouro servia como refletor em aposentos parcamente iluminados. Em outras palavras, os antigos não consideravam ouro em pó ou em folha um artigo de luxo; simplesmente tiravam proveito do seu poder reflexivo para obter a claridade de que careciam” ( 2007 p.37).

 

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Quimonos: “ … quimonos de senhoras e de mulheres jovens da classe mercantil do período Edo, por exemplo, eram feitos de cores sóbrias porque a roupa era parte das sombras, simplesmente um elemento de conexão entre estas e o rosto. E o costume de enegrecer os dentes, parte da maquiagem feminina da época, talvez fosse uma tentativa dos antigos de escurecer todo e qualquer espaço branco que não fosse a face da mulher pela introdução de sombras na cavidade bucal” ( 2007 p. 45).

 

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É fascinante acompanhar o pensamento de Tanizaki. Gostaria de ter lido esse livro quando estava escrevendo minha tese de doutorado sobre Estética do Sertão, com certeza seria um grande interlocutor.

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Em louvor da sombra me foi recomendado por Edgard de Assis Carvalho ( prof. da PUC – SP).

Sobre o autor:

Junichiro Tanizaki nasceu em Tóquio, em 1886 e morreu em 1965. Foi considerado por muito tempo como o escritor japonês vivo mais importante da contemporaneidade.

A tradução:

A tradutora ressalta que esse texto foi escrito em dezembro de 1933 e janeiro de 1934. A tradutora é Leiko Gotoda, por acaso sobrinha do escritor Tanizaki, porém não o conheceu em vida, era um tio distante ( mais informações sobre Leiko numa matéria de Renato Cruz _ Do japonês, para brasileiro ler – Estadão de Hoje- caderno2 –12 de junho de 2008).

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MIA COUTO

22 de janeiro de 2010

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Já faz um bom tempo que leio Mia Couto, livros como: Vozes Anoitecidas, Estórias Abensonhadas, O Último Voo do Flamingo, Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra e o último editado em 2009, edição portuguesa, com um título interessante: e se Obama fosse africano? e outras interinvenções. De cara dá para ver que ele gosta de inventar palavras ou dá a elas outros significados. Se constata assim uma aproximação com a obra de Guimarães Rosa. Li também um depoimento dele confessando sua admiração e leitura da obra de Guimarães.

Quando comecei a ler Mia Couto senti uma aproximação muito forte com as histórias do sertão, com o povo sertanejo. Em seus contos aparecem personagens como dona Temporina ( uma velha que anda nos corredores escuros desde há séculos), o avô Mariano, a avó Dulcineusa, a Luar-do-Chão ( lembrando os personagens dos contos de Newton Navarro), João Loucomotiva, Seu Abstinêncio ( que era magro por timidez, para ser menos visto), dona Admirança, Miserinha Botão e por ai vai. A nossa literatura que tem os olhos voltados para o sertão tem sim uma grande semelhança com a literatura africana de língua portuguesa, através das histórias das figuras populares, do linguajar, da maneira de se colocar na vida, tudo é muito próximo.

Ler contos, referências, histórias escritas por Newton Navarro, Bartolomeu Correia ou Oswaldo Lamartine entre outros é também ler Mia Couto.

Editei aqui um trecho interessante do livro “ e se Obama fosse africano? sobre a história de uma cobra que cantava o hino nacional:

“Este caso mereceu durante semanas o maior destaque na imprensa nacional. Sucedeu o seguinte: uma cobra, uma mamba preta, fez moradia no edifício da Administração. Um número não definido de mortes ( que nunca se confirmaram) foi reportado. As vítimas não tinham sido mordidas. Morriam, diz-se, porque pisavam a sombra da serpente ( crivo meu: achei fantástico pisar a sombra de uma cobra). Não deixa de ser interessante que alguém possa pisar a sombra de uma serpente. Mas o mais misterioso era que, todas as noites, a cobra entoava o hino nacional. Pelas janelas sem vidros do edifício se espalhavam os afinados acordes. Os residentes escutavam em perfilado respeito, e alguns faziam mesmo coro com a patriótica serpente. O pânico espalhou-se na Vila e as autoridades convocaram os cientistas. Poucas vezes chamam os cientistas e aquela repentina subida de divisão era um momento vivido com exaltação. Foram desenhadas tácticas e estratégias: derrubou-se um morro de muchém e as árvores em redor da Administração, que se pensava serem o habitat do perigoso réptil. Durante dias, o jornal governamental deu conta das atribuições da caça à serpente. O sector privado foi chamado a financiar as operações de captura. Um colega meu esteve dois dias no chamado “centro de acontecimentos”, para fazer sessões de esclarecimento sobre a necessidade de proteger répteis em perigo de extinção.
Como sempre, acreditamos que a tecnologia nos salva de todos os embaraços e esse colega herpetólogo muniu-se de todos os apetrechos: câmara de vídeo, projector de diapositivos, indicador de raios laser. (Existe, meus amigos, uma espécie de loja do Coronel Tapioca montada para os cientistas que trabalham nos trópicos.) Quando terminou a campanha de sensibilização, as autoridades locais agradeceram do seguinte modo: “Gostámos muito do que nos mostrou; só é pena que não tenha falado desta cobra”. “Como não falei?”, reagiu ele. “Então não falei da mamba negra?” E os camponeses responderam: ”Falou sim, mas não é esta”. Desesperado, o biólogo só queria uma derradeira confirmação:”Digam-me só uma coisa:isso que tem aparecido aqui é realmente uma cobra?” E a resposta final foi:”Quase é, doutor. Quase é”.

Pois é, Mia Couto ainda argumenta que quando Shakespeare proclamou a existencial dúvida do “ser ou não ser”, não estava avisado dessa outra categoria do “quase ser”. Eu gostei tanto que agora vou colocar nas minhas categorias de identificação: sou quase professora, quase artista plástica ou quase nada…

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Citações ( tiradas) de alguns personagens de Mia Couto:

“Não sou mau lembrador.

Minha única dificuldade é ter que escrever por escrito”.

Confissão do administrador.

 

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“Que eu queria era falecer vítima da melhor receita da vida:- bebida certa e mulheres erradas”.
Depoimento de Sulplício.

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“Não me basta ter um sonho.

Eu quero ser um sonho”.

Palavras de Ana Deusqueria.

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“Quem voa depois da morte?

É a folha da árvore”.

Dito de Tizangara

 

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“Cada um descobre o seu anjo

tendo um caso com o demônio”.

Avô Mariano

“A velhice me ensinou: o amor é coisa de vivo.Ou talvez o amor seja a mãe de toda a coisa viva. Pois, eu, mesmo antes, nunca fui bem vivo. Por isso, nunca o amor foi para mim”.

Avô Mariano

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“Solteira, chorei.

Casada, já nem pranto tive.

Viúva, a lágrima teve saudade de mim”.

Miserinha

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“O bom do caminho é haver volta.

Para ida sem vinda basta o tempo”.

Curozero Muando

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“O importante não é a casa onde moramos.

Mas onde, em nós, a casa mora”.

Avô Mariano

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“Encheram a terra de fronteiras, carregaram

o céu de bandeiras. Mas só há duas nações

_ a dos vivos e a dos mortos”.

Juca Sabão

Todas as ilustrações são do artista plástico Flávio Freitas. Estão no livro: Encantaria da Pedra – O espaço estético no sertão e na obra de Flávio Freitas.2002.

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