capa do livro
Annie Leibovitz escreveu na abertura desse livro que editá-lo foi uma das formas que encontrou para dizer adeus a Susan Sontag, depois de um longo período de amizade, companheirismo e romance.
O livro cobre um período de 1990 a 2005. Como ela mesma declarou o fio condutor foi o tema da morte e da dor que atravessou como um sopro todo o livro.
Susan Sontag morreu logo após o Natal, no dia 28 de dezembro de 2004, após um longo período lutando contra um câncer. Porém Annie no mesmo período não só perdeu Susan Sontag, seis semanas depois o seu pai, Samuel Liebovitz, também morreu. Impregnada do sentimento de perdas ela começa na época a editar o livro.
Grande parte das fotografias nele é familiar para Annie: seus pais, irmãos, filhos, alguns artistas, celebridades, amigos e Susan Sontag, em suas viagens, encontros e todo o período que estiveram juntas até a morte.
O livro traz fotos bastante fortes de Susan Sontag, entre a dor numa cama de um hospital, a exposição do seu corpo nu após uma mastectomia, a queda dos cabelos após uma quimioterapia, até seu corpo pronto para o funeral. A própria Annie confessa que forçou a si mesma para fazer essas fotos, porém ela tinha que terminar um trabalho que começaram juntas, quando foi dado o diagnóstico de câncer para Susan Sontag.

Susan em Milão ( 1991)
Susan em Capri ( 1992)
A fotografia de Annie Leibovitz nos parece sempre caminhar nesse fio entre o real e o mais próximo possível do que há de mais humano no homem, sem esquecer os sonhos.
Susan, Nova York ( 1993)
Ela ( Annie Leibovitz) declara que sua fotografia precisa de envolvimento, que ela adora a rua ( não gosta muito de fotografar em estúdio), adora ir à casa das pessoas, vê o que há em suas paredes, a cadeira que gosta de sentar, saber como aquela pessoa vive para depois retratá-la.
Argumenta também que quando jovens fotógrafos a perguntam sobre o que podem fazer para se tornarem bons fotógrafos, ela responde, permaneçam o mais próximo possível de casa. Essa metáfora da casa é exatamente essa proximidade, esse envolvimento que ela procura em cada imagem que capta.
Realmente não dá para escrever, pintar ou fotografar distante do seu alvo e de si mesma.
Esse livro “ Annie Leibovitz – A Photographer’s Life” tem mais de seiscentas páginas, no tamanho 35 x 26 cm, com algumas fotografias em cores e grande parte em preto e branco. É uma bela viagem ao mundo estético da mais famosa fotógrafa americana.
As legendas em inglês e fotos a seguir são fragmentos do livro de Annie Leibovitz:

Autoretrato ( 1991)
“Going through my pictures to put this book together was like being on an archaeological dig”
Susan em Nova York ( 1992)
“After Susan died, on December 28, 2004, I began searching for photographs of her to put in a little book that was intended to be given to the people who came to her memorial service. The project was important to me, because it made me feel close to her and helped me to begin to say good- bye”
“… that the period this book covers is almost exactly the years I was with Susan, I considered doing a book made up completely of personal work”
“ I found the first photograph, of Susan at Petra, when I was working on the memorial book. Photographs take on new meanings after someone dies. When I made the picture, I want her figure to give a sense of scale to the scene. But now I think of it reflecting how much the world beckoned Susan”

Susan em Belgrado ( 1993)
“ My pictures are helped by an environment. I love the street. I love going to someone’s house, seeing what’s on their walls, what chair they sit in. I like to see how they live”
Eudora Welty ( 1997)

Willie Nelson (2001)
Gwen Torrence, Carl Lewis ( 1996)

Cate Blanchett ( 2004)
Os pais de Annie Leibovitz:
Sua mãe e um neto ( 1992)
“My mother, she had studied dancing and she played the piano”
Seus pais (1988)
Filhos de Annie Leibovitz quando criança:

Foto de Annie Leibovitz tirada por Susan Sontag em outubro de 2001

Susan com Sarah ( 2001)
Sarah Cameron Leibovitz ( abril de 2002)
Sarah
Susan e Samuelle ( gêmios) ( mãe de aluguel) 2005

Susan Sontag e Sarah

Sarah e o avô, Samuel Leibovitz
Susan Sontag:
México ( 1989)
Susan no Egito ( 1993)

“I forced myself to take pictures of Susan’s last days. Perhaps the pictures completed the work she and I had begun together when she was sick in 1998”.
“We buried Susan in Paris, and when I got back to New York from the funeral I took photographs from the windows of my apartment in London Terrace, across the snow toward her apartment, which was only a few yards away. I was so used to looking over there and seeing a light on”.
“A few weeks later, I photographed my father’s death. He had chosen to die in a different way than Susan did. He didn’t go to the hospital. He died at home, in his sleep early in the morning. My mother was holding him”
Um poema:
O poeta, ensaísta, francês, Jacques Roubaud também em sua cerimônia de adeus a sua mulher escreveu um belo livro de poesia chamado “algo: preto poemas “, editado pela Perspectiva em 2005. Trago aqui dois poemas dele para acompanhar a fotografia de Annie Leibovitz.
“Eu queria desviar seu olhar para sempre, eu queria ser o único no mundo a não ter visto, essa mão podia não ter estado lá, afinal: nem eu tampouco, e comigo desaparecer o mundo, esse brinde. a imagem da sua morte.
Ela amara a vida apaixonadamente de longe. sem a impressão de estar nela nem de fazer parte dela. infeliz, ela fotografava relvados tranqüilos e felicidade familiar. êxtase paradisíaco, ela fotografava a morte e sua saudade.
Enfim adequação exata da morte mesma à morte sonhada, a morte vivida, a morte mesma mesma. idêntica à ela mesma.
Puro princípio do amor.
Adormecer como todo mundo, o que quero.
Amo-te até lá.
Evidentemente não era um brinde comum. o de me oferecer, às cinco horas da manhã, numa sexta-feira, a imagem de tua morte.
Não uma fotografia.
A morte mesma mesma. idêntica a ela mesma”.
Jacques Roubaud
Susan with Richmond Burton
Susan Sontag e Sarah (2002)
“Esta fotografia, tua última, deixei-a na parede, onde puseras, entre as duas janelas,
E ao entardecer, recebendo a luz, sento-me, nesta cadeira, sempre a mesma, para olhar para ela, onde a puseste, entre as duas janelas,
E o que se vê, aí, recebendo a luz, que declina, no golfo de tetos, à esquerda da igreja, o que se vê, ao entardecer, sentado nessa cadeira, é, precisamente,
O que mostra a imagem deixada na parede, no papel marrom escuro da parede, entre as duas janelas, a luz,
Avança, em duas línguas oblíquas flui na imagem, de revés, até o ponto exato onde o olhar que a concebeu, o teu, concebeu, versar indefinidamente a luz reversa a quem, eu, olha para ela,
Pousada, no centro, do que ela mostra,
Porque nesse centro, o centro do que ela mostra, que eu vejo, há também, recorrente a própria imagem, contida nele, e a luz, entra, desde sempre, do golfo de tetos á esquerda da igreja, mas sobretudo há, o que agora falta
Tu. porque teus olhos na imagem, que olham para mim, neste ponto, nesta cadeira, onde eu me sento, para ver-te, teus olhos,
Já vêem, o momento, em que estarias ausente, prevêem-no, e é porque, eu não pude mover-me deste lugar”.
Jacques Roubaud
Janela do apartamento de Annie Leibovitz que dava vista para o apartamento de Susan Sontag.